18 de jul. de 2023

Os enigmas Históricos do Tarot

O tarot está rodeado de uma aura de encanto e de mistério, muito mais do que qualquer outro sistema divinatório. Quem toma pela primeira vez, em suas mãos, um baralho de Tarot, sente uma indescritível atração pelas imagens gravadas nas cartas. São figuras que, por um lado, parecem estranhas, mas que ao mesmo tempo, fazem vibrar algo em nosso interior. É como se falassem direta- mente à alma, despertando um conhecimento profundo e atemporal durante muito tempo esquecido, ainda que preparado para novamente surgir à superfície. Quem inventou estas cartas? Quando? Onde? E principal- mente: qual a finalidade?

Atualmente, não temos resposta para nenhuma destas perguntas. Toda história tem uma parte externa, até certo ponto aceita, estudada e analisada, e outra oculta e insuspeita, que historiador algum jamais pôde registrá-la. Poucas vezes isso tem sido tão evidente como no caso do Tarot. Vejamos um resumo da sua história externa.

O significado da palavra Tarot

Seu próprio nome já é um mistério. A palavra Tarot, usada na atualidade na maioria dos idiomas, é o termo francês que denomina o tarocco, jogo que até onde sabemos apareceu pela primeira vez no norte da Itália, no início do século XV, composto por 78 cartas, formadas por 22 "triunfos" ou Arcanos Maiores e 56 Menores, que por sua vez estão divididos em quatro espécies ou naipes: ouros, copas, espadas e paus.

Já no ano de 1550, Flávio Alberti Lallio perguntava-se como era possível a estranha palavra tarocco carecer de etimologia. É extraordinário que não exista referência alguma a esta palavra antes que o jogo tivesse aparecido. Especula-se que no começo foi denominado "triunfos" ou "cartas com trunfos, triunfos", pois não consta nenhuma referência escrita à palavra tarocco até o ano de 1516. As teorias acerca da origem da palavra Tarot são abundantes, a maioria delas do tipo esotérico.

Alguns acreditam que procede do termo Tara, frequente nas tradições e nos mitos de diferentes povos antigos, entre eles, no tantrismo tibetano. Para aqueles que atribuem ao Tarot uma origem egípcia, seu nome é derivado das palavras egípcias Ta - Rosh, que significa "o estilo ou o caminho real". Os que creem que o Tarot foi composto por cabalistas, não podem deixar de notar a similitude das palavras Tarot e Torah, nome dado pelos hebreus aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento. Para outros, a palavra Tarot é um anagrama do vocábulo latino rota, que significa roda, em referência à contínua mudança que prevalece neste mundo, ligando-se ao mesmo tempo com a tradição hindu da roda da vida e com o I Ching, o livro chinês das mudanças. Curiosamente, as cinco letras da palavra Tarot contêm as três da palavra Tao (o caminho), sendo este também o significado da palavra árabe Tariga, etimologia preferida pelos que sustentam a teoria de que o Tarot foi composto por um grupo de sábios do norte da África. Por si, só isto seria pouco. Na região do norte da Itália, de onde procedem as primeiras referências históricas ao Tarot, há um rio denominado Tarot, nome que, segundo alguns, foi dado ao jogo inspirado em cer tas cartas orientais trazidas pelos mercadores que chegavam a Veneza (naquela época, a cidade de Veneza era o porto principal de todo o comércio com a Ásia).

A realidade é que, até o dia de hoje, a origem do seu nome, como a origem do próprio Tarot, continua oculta, atrás do mais profundo dos mistérios.

Os primeiros dados históricos do Tarot

Gun Pei Chinês

Ainda que os primeiros jogos de carta tenham surgido na China, ao redor do século X da nossa era, está para ser demonstrado que tivessem alguma semelhança com o Tarot ou com outros jogos de cartas europeus. De fato, as primeiras referências historicamente comprovadas sobre o Tarot procedem dos meados do século XV. Um manuscrito religioso, datado do final daquele século, inclui o sermão de um sacerdote franciscano que, por volta do ano de 1450, arremete contra os jogos em geral, qualificando-os de invenção diabólica e menciona especificamente três: os dados, as cartas e os "triunfos". Os jogos de cartas já eram populares, pelo menos há cem anos antes, e as referências históricas são abundantes: no ano de 1332, Afonso XI, rei de Leão e Castela, proibiu seus cavalheiros de entreterem seu ócio jogando cartas. Em 1377, um monge suíço faz uma minuciosa descrição do jogo de cartas e dos seus quatro "naipes" - ouros, copas, espadas e paus- mas não faz referência aos "triunfos (hoje Arcanos Maiores). No ano de 1480, um autor chamado Covelluzo disse que as cartas haviam chegado à Itália no ano de 1379, trazidas pelos árabes do norte da África, sem mencionar nelas os Arcanos Maiores. Um documento da corte do rei Carlos VI da França (1380 - 1422), datado no ano de 1392, registra um pagamento efetuado ao pintor Jacquemin Gringoneur por "très jogos de cartas coloridos e adornados", porém, se desconhece se tais jogos incluíam também os "triunfos". Curiosamente, no mesmo ano de 1392, o rei Calos VI ficou louco. 

Imperatriz, Imperador e o Enamorado - Tarot de Mitelli

A grande popularidade que o jogo de cartas havia alcançado, já nos meados do século XV, entre todas as classes sociais, torna-se evidente através da ordem emitida pelo alto magistrado de Veneza, no ano de 1441, proibindo a importação de baralhos, a fim de proteger a produção local. O Parlamento inglês promulgaria uma lei similar no ano de 1464. Não obstante, o citado sacer- dote franciscano é o primeiro a mencionar os "triunfos" e seus nomes, que são bastante parecidos com os atuais Arcanos Maiores: el bagatello, imperatrix; imperator; la papesa; el papa; la temperantia; l'amore; il carro triunfale; la forteza; la rotta: el gobbo, lo impichato; la morte; el diavolo; la sagitta; la stella; la luna; el sole; l'angelo; la iustizia; el mondo y el matto. Por outra parte, diferencia-os claramente do "jogo de cartas", como se tratassem de algo totalmente distinto. 

Assim, tudo parece indicar que, em algum momento, possivelmente na primeira metade do século XV, os triunfos ou Arcanos Maiores fundiram-se ou foram incorporados aos jogos de cartas já existentes, há pelo menos cem anos atrás. De onde procediam tais "triunfos" - e quem tenha sido seu autor ou auto- res- continua sendo, até hoje, um profundo mistério.

Os baralhos mais antigos de Tarot existentes na atualidade

O Tarot mais antigo que chegou aos nossos dias é o de Visconti Sforza, pintado à mão (crê-se que por Bonifacio Bembo), em meados do século XV. Pelo que parece, foi produzido como um presente em comemoração às bodas de Bianca Maria Visconti (filha de Filippo Maria Visconti, duque de Milão) com o condot-tieri (soldado profissional) Francesco Sforza, celebradas no ano de 1441. 

Tarot de Visconti Sforza - de 1460

Na atualidade, existem onze versões deste Tarot, todas incompletas; a maior delas, que consta de 74 cartas, foi bastante reproduzida. Os Arcanos Maiores e as figuras não trazem números nem nomes. Não se tem informação certa a respeito de qual das versões existentes é a mais antiga. Muitas das cartas mostram os escudos de armas de ambas as famílias.

Por outro lado, na Biblioteca Nacional de Paris, conservam-se 17 cartas antigas, a maioria delas Arcanos Maiores, de margens prateadas e fundos dourados. Ainda que, em repetidas ocasiões, tenha sido sugerido que estas cartas fizessem parte dos jogos comprados pelo rei Carlos VI, em 1392, não há nenhum dado que o confirme. Efetivamente, incluindo as vestimentas das figuras, parecem ser de uma época bastante posterior.

Nos fins do século XV, os baralhos de Tarot italianos e franceses (de Marselha), e também os de todo o resto da Europa, já tinham evoluído com diferentes desenhos. Desde princípios do século XVI até meados do século XVIII, sua metamorfose quanto a conteúdo, estilo, desenho e tamanho foi, contudo, a maior. Sem dúvida, a invenção da Imprensa, no início do século XV, ajudou enormemente a sua difusão, pois, em vez de serem pintadas à mão, as cartas já eram impressas com moldes de madeira. No começo do século XVII, o Tarot mais comum era o de Marselha, considerado hoje como o pai de todos os Tarôs modernos, e que ainda continua sendo o mais popular, principalmente nos países de língua francesa.

O Tarot de Mantegna

Opinam alguns que as cartas do Tarot, com seus símbolos e suas virtudes, podem ter sido derivadas de um sistema de cartas utilizado pelo ensino infantil. Assim parece sugerir o chamado Tarot de Mantegna, composto de cinquenta cartas que procedem - ao que parece - do final do século XV. O Tarot de Mantegna está dividido em cinco séries de dez cartas cada uma, designadas com as letras E (ou S) D, C, B e A, estando cada série dedicada a um tema:

Ninguém sabe atualmente o significado das letras que identificam cada uma das cinco séries, porém, é certamente muito curioso que vinte duas das cartas de Mantegna tenham uma semelhança notável com dezesseis cartas do Tarot, treze Arcanos Maiores e três Menores.

Tarot de Mantegna

Nasceu e evoluiu o Tarot como um produto autóctone do norte da Itália ou chegou procedente de outras terras, logo se adaptando e influenciando outros jogos de carta como o de Mantegna?

Tarot e os Ciganos

Madame Lenormand

A teoria de que o Tarot chegou na Europa trazido pelos ciganos foi mantida com veemência durante séculos. Estes começaram a chegar em solo europeu, procedentes da Asia Central, a partir do ano de 1411, o que, cronologicamente, seria factível, porém não há um único indício que apoie esta teoria - nem tampouco nenhuma outra - no que se refere à origem do Tarot. A propensão divinatória dos ciganos parece corroborar isto, ainda que, novamente, não se encontre nenhuma referência escrita, e além do mais, as artes divinatórias dos ciganos costumam orientar-se para outros campos: basicamente, a leitura das linhas da mão. Não obstante, o ocultista francês Papus disse em seu livro O Tarot dos Boêmios:

"Os boêmios possuem uma bíblia; esta bíblia facilita-lhes o viver diário, pois com ela predizem a boa sorte; esta bíblia é também um motivo contínuo de ócio, posto que lhes permite entreterem-se jogando'.

Sim, este jogo de cartas, denominado Tarot, que os boêmios possuem, é a bíblia das bíblias. É o livro de Toth - Hermes-Trismegisto, é o livro de Adão, é o livro da revelação primitiva das antigas civilizações.

Quando o maçom, homem inteligente e virtuoso, perdeu a tradição; quando o sacerdote, igualmente inteligente e virtuoso perdeu seu esoterismo, os boêmios, homens ignorantes e viciosos, dão-nos a chave que nos permitirá explicar todos os simbolismos.

Como não admirar a sabedoria destes iniciados que utilizaram os vicios e os fizeram produzir, para o bem, maiores resultados da virtude? Este livro de cartas dos boêmios é um livro maravilhoso.

Este jogo, com o nome de Tarot, Tora ou Rota, formou sucessivamente a base do ensinamento sintético de todos os povos antigos.

Onde o homem do povo não vê outra coisa senão um simples passatempo, os pensadores encontram a chave desta obscura tradição..."

Vemos que Papus atribui aos ciganos um importante papel na conservação e difusão do Tarot, ainda que em nossos dias sejam poucos os que compartilham abertamente desta opinião.

O redescobrimento do Tarot: Court de Gébelin

Durante os séculos XV E XVI, o jogo do Tarot (ou cartas com trunfos) floresceu em toda Europa; assim, no ano de 1622, um sacerdote jesuíta comentava que, na França, jogava-se muito mais o Tarot que o xadrez. Entretanto, até fins do século XVII, as coisas mudaram. Sua popularidade declinou rapidamente. Um livro de jogos publicado em 1726 o qualificava já como "obsoleto" e tudo parecia indicar que o Tarot cairia definitivamente no esquecimento popular para ser conhecido tão somente pelos historiadores especializados.

Não obstante, uma série de circunstâncias, decorridas a partir do ano de 1775, deram-lhe nova vida, e mais, o converteriam em algo muito diferente de um simples jogo de cartas que até então havia sido.

Corria o citado ano de 1775, quando a António Court de Gébelin erudito sacerdote protestante e franco-maçon - foi ensinado o jogo de um baralho, noutrora popular, que estava já totalmente esquecido. Ao serem mostradas, uma a uma, as cartas do Tarot de Marselha, Court de Gébelin sentiu-se automaticamente fascinado por elas, e de imediato seu simbolismo per- filou-se muito claramente na sua mente. Deduziu por intuição que se tratava de um antigo livro egípcio, cujos desenhos continham toda a sabedoria daquela civilização já extinta, e atribuiu-o ao poderoso deus egípcio Toth. Posteriormente, recopilou seus trabalhos sobre o Tarot num livro que intitulou Jeu de Cartes (Jogo de Cartas).

A grande reputação de Court de Gébelin fez com que suas ideias sobre o Tarot se popularizassem com rapidez, para o que contribuiu muito um vidente e adivinho profissional que se fazia chamar por "Etteilla" (transposição do seu nome real Alliette ). Etteilla era um apaixonado pelos temas egípcios que adotou o Tarot como instrumento divinatório e apoiou totalmente a teoria de sua origem, adornando-a com novos detalhes da sua pesquisa, assim como a data da sua criação, 171 anos depois do Dilúvio, e a identidade dos seus criadores, composta por 17 magos sob as ordens diretas de Hermes Trismegisto num templo, distante três léguas de Menfis. Lamentavelmente, quando, dezoito anos depois, graças à Pedra Rosetta, a maioria dos hieroglifos egípcios pôde ser traduzida, não apareceu neles, nenhuma referência ao Tarot, mas não por isso perdeu força a teo- ria da sua origem egípcia; além do mais, a ideia, comum durante séculos, de que os ciganos procediam do Egito, seguiu de alguma maneira apoiando tal crença.

O notável é que, graças a Court de Gébelin, o Tarot deixou de ser um simples e esquecido jogo de cartas para se converter em algo muito mais sério e transcendental, dotado agora de muita profundidade, mistério e esoterismo.

O Tarot e a Cabala: Elyphas Lévi

Ainda que Court de Gébelin já tivesse notado certa correspondência entre as 22 lâminas do Tarot e as 22 letras hebraicas, quem realmente elaborou com pormenores esta relação foi Alphonse Louis Constant, mais conhecido como Elifas Levi. Nascido em 1810, havia se preparado para ser sacerdote, logo exerceu o jornalismo, e finalmente dedicou sua vida ao estudo da magia e do ocultismo. Na sua obra-prima, Dogma e Ritual de Alta Magia, publicada no ano de 1854, manifesta que o Tarot foi sua principal fonte de informação. De fato, Elifas Levi viu no Tarot uma poderosa conexão com muitas tradições ocultas - entre elas, supostamente, os mistérios egípcios - não obstante, a profunda relação que captou entre os 22 trunfos do Tarot e o alfa- beto hebraico, levou-o inclusive a estabelecer uma nova origem:

"Quando em Israel cessou o sacerdócio soberano, quando todos os oráculos do mundo permaneceram silenciosos ante a Palavra que se converteu em Homem, quando se perdeu a Arca, profanou-se o Santuário e foi destruído o Templo, os mistérios de Ephod e Theraphim já não foram gravados a ouro e pedras preciosas, senão que também foram escritos, ou melhor, desenhados pelos sábios caba- listas, primeiro em marfim, pergaminho ou couro prateado, e logo em simples cartões, os quais foram sempre objetos de suspeita por parte da Igreja oficial, por conterem a chave dos mistérios. Destes cartões derivaram-se os Tarôs, cuja Antiguidade foi revelada a Court de Gébelin, através da Ciência dos hieróglifos e dos números."

Elifas Levi, entretanto, não somente viu o Tarot como uma relíquia ou um sistema de símbolos procedente da Antiguidade, mas também como um instrumento totalmente prático, como uma chave para ascender à sabedoria atemporal:

"O Tarot é de fato uma máquina filosófica, que evita que a mente divague, mantendo, ao mesmo tempo, toda a sua iniciativa e liberdade. São as matemáticas aplicadas ao Absoluto. São as alianças do positivo e do ideal. É uma loteria de pensamentos tão exata quanto os números, Talvez estejamos diante da maior e mais simples criação do gênio humano em todos os tempos. Alguém, preso numa cela, sem outro livro, senão o Tarot, pode, em poucos anos - se souber como usá-lo - adquirir todo o conhecimento universal e ser capaz de falar sobre qualquer tema, com inigualável precisão e eloquência."

A emoção de Eliphas Levi é compreensível se levarmos em conta que, desde o ponto de vista cabalístico, o alfabeto hebraico é algo mais que um simples sistema de escritura: é uma expressão de todos os feitos e de todas as forças da criação, organizada na estrutura conhecida como a Árvore da Vida, composta por dez esferas ou Sephiroth, as quais estão conecta- das por vinte e dois caminhos da sabedoria, cada um deles designado por uma letra hebraica. Elifas Levi relacionou cada um dos 22 Arcanos Maiores do Tarot aos 22 caminhos da árvo re, e posteriormente acomodou também os Arcanos Menores, criando assim um sistema completo que integrava o número, a palavra e a imagem. Esta síntese havia sido, durante séculos, o grande sonho dos investigadores esotéricos.


Com o passar do tempo, os 22 Arcanos Maiores foram destinados aos 22 caminhos da Árvore da Vida de formas diferentes. A seguinte é uma das mais usuais:

O Tarot nos fins do século XIX. Papus


As idéias de Elifas Levi foram recolhidas e ampliadas por outros ocultistas posteriores, entre eles Paul Christian, que, em 1863, publicou O Homem Vermelho das Tulhérias, obra que exerceria grande influência sobre várias gerações de ocultistas. Ainda que nela o Tarot não seja nunca nomeado, as alusões são abundantes: Christian descreve, por exemplo, um grande círculo forma- do por setenta e oito lâminas de ouro, que uma vez estiveram ocultas num templo de Menfis, cumprindo cada uma delas uma função específica no processo de iniciação aos antigos mistérios.

No ano de 1888, ocorreram dois fatos que tiveram grande transcendência na história do Tarot: o marquês Stanislas de Guaita e o Dr. Gérard Encausse, Papus, fundaram a Ordem Cabalística da Rosa Cruz. Um ano depois, Guaita e o pintor Oswald Wirth produziram uma versão revisada do Tarot clássico, que continua sendo editada na atualidade. Ao mesmo tempo, Papus publicava sua obra O Tarot e os boêmios. Seguidor de Elifas Levi, Papus elaborou e refinou as ideias esboçadas por este, e sua obra compõe-se basicamente de interpretações cabalísticas do Tarot e de fundamentos de tipo mágico. Papus levou a um passo adiante o que fora dito por Court de Gébelin sobre a origem do Tarot. 
Segundo ele, os sacerdotes egípcios decidiram deliberadamente dar a seus segredos a aparência de um jogo:

"Inicialmente, os sacerdotes pensaram que estes segredos deviam ser confiados a um grupo de homens virtuosos, recrutados secretamente pelos próprios iniciados para que os transmitissem de geração em geração. Um dos sacerdotes, entretanto, percebendo que a virtude é coisa muito frágil e muito difícil de encontrar, propôs confiar suas tradições cientificas não à virtude, mas ao vício. O vício, segundo ele, nunca desaparecerá totalmente, por ele e através dele podia assegurar-se a permanência dos princípios que que riam eles transmitir à posteridade. Evidentemente, a op nião deste sacerdote foi a que prevaleceu e por ele se sele cionou um jogo. Então, gravaram-se pequenas placas com as misteriosas figuras que representam os mais importantes segredos cientificos, e assim os jogadores de cartas transmi tiram esse Tarot de geração em geração, muito melhor do que o teriam podido realizar os homens, os mais virtuosos."

Ainda que, na realidade, o Tarot dos boêmios seja mais um livro de magia que de Tarot, a meticulosidade de Papus, ao argumentar e apoiar cada uma das suas afirmações o põe em desta- que entre as numerosas obras de ocultismo publicadas na França na Segunda metade do século XIX.

Criação do Tarot moderno - A Golden Dawn


Outro sucesso importante que ocorreu em 1888 foi a criação da Ordem Hermética da Aurora Dourada (The Hermetic Order of the Golden Dawn). Fundada em Londres por um notável grupo no qual se encontravam não apenas aficionados à magia, mas também verdadeiros eruditos como William Butler Yeats (prêmio Nobel de literatura) e Gerald Kelly (posteriormente presidente da Real Academia), a Golden Dawn durou apenas alguns anos, mas sua influência sobre o ocultismo do século XX tem sido impres sionante e, de fato, continua chegando até nossos dias.

Um dos fundadores da Golden Dawn, o Dr. Wynn Wescott, entrou em contato com Samuel Lidell Mathers (que logo se fez chamar por Mac Gregor Mathers), que havia escrito um livro de adivinhações sobre o Tarot e o convidou a se unir à recém cria da sociedade. Rapidamente, MacGregor Mathers converteu-se na principal força impulsora da Golden Dawn e no seu mais pro- eminente teórico. Dotado de um grande engenho e de notável carisma, excêntrico e autoritário, Mathers foi o autor da maioria dos rituais mágicos da Ordem. Sob sua liderança, a Golden Dawn criou um sistema mágico moderno, que integrava de um modo coerente diferentes disciplinas: a cabala, o Tarot, a alquimia, a astrologia e a numerologia, junto à experiência visionária, a magia ritual. Os membros da Golden Dawn eram pesquisadores sérios que deviam realizar um impressionante trabalho, passando por uma série de iniciações cada vez mais complicadas, estudando as diversas matérias citadas, participando de rituais e tratando de conseguir visões espirituais. Além do que, deviam trazer um diário, nele pormenorizando todas as suas experiências e, sobretudo, deviam meditar diariamente sobre as imagens do Tarot.

Na Golden Dawn, o Tarot adquiriu um contexto esotérico que nunca antes havia tido. Foi relacionado coerentemente com quase todas as tradições antigas e, o que é mais importante, foi utilizado de um modo muito criativo. Cada membro devia desenhar seu próprio Tarot, baseando-se nas instruções que recebia da Ordem. Os triunfos ou Arcanos Maiores (que então passaram a se chamar "chaves") foram considerados como portas, através das quais a imaginação penetrava em níveis profundos e imateriais do ser. As diferentes cartas se lhes consignaram distintos "graus" ou níveis, e eram aplicadas profusamente em numerosos rituais e iniciações.

Dissolução da Golden Dawn


Até o ano de 1900, no seio da Golden Dawn já haviam surgido várias facções, que eram cada vez mais fortes e divergentes. Mathers vivia então em Paris com sua esposa Moina (irmã do filósofo Henri Bergson) e, a partir de lá, tratava de controlar os membros de Londres, através de cartas e remessas, mas sua autoridade real decaía sem remédio. Sabe-se que, numa tentativa de recuperar sua posição anterior, divulgou a notícia de Wescott havia falsificado um importante documento relativo à fundação da Ordem. Isto precipitou mais as coisas. Yeats, que sofreu enormemente com aqueles escândalos, escreveu numa carta confidencial à sua amiga Lady Gregori: "Ultimamente pas. sei muito mal. Já te contei que havíamos tirado Mac Gregor da Cabala. Pois bem, na semana passada mandou um louco - a quem tempos atrás havíamos negado a iniciação - para que tomasse posse dos bens e dos documentos da sociedade..." que

O "louco" em questão era Aleister Crowley, membro da ordem "externa" e, nesta ocasião, jovem protegido por Mathers. Crowley, que, disfarçado com uma túnica celta e com uma más- cara negra no rosto, tratou de tomar posse dos documentos e da parafernália da sociedade e teve de ser retirado à força pelos guardas. Segundo palavras de Yeats, a iniciação e a passagem ao circulo "interno" lhe haviam sido negados porque se supõe que a Golden Dawn era uma sociedade mística, e não um manicômio".

Este episódio, todavia, precipitou ainda mais a desintegração da Ordem, de cujos restos surgiram logo numerosas sociedades esotéricas, algumas das quais continuam funcionando atualmente. Dado que o Tarot havia sido um dos temas mais estudados de todo o seu sistema, cada um dos mencionados grupos criou logo seu próprio Tarot, "aperfeiçoando" o da Golden Dawn, e supostamente um livro (ou vários) interpretando-o. Deste modo, a dissolução da Golden Dawn originou um crescimento e a difusão do Tarot ainda muito maior do que nunca antes houvera.

O Tarot de Waite


Arthur Edward Waite

Dentre os tarôs que surgiram das cinzas da Golden Dawn, aquele criado por Arthur Edward Waite é o mais significativo. Sem dúvida é o mais conhecido de todos os tarôs modernos e que, quase cem anos depois, ainda continua sendo também o mais difundido.

Waite era um estudioso que havia traduzido para o inglês as obras de Papus e de Elifas Levi, entre outras, e que, em 1903, foi encarregado do templo londrino da Golden Dawn, infundindo-lhe no ao, uma orientação mais mística do que mágica. Yeats e um nutrido grupo de membros que preferiam o caminho da magia iniciado por Mac Gregor Mathers separaram-se então, criando por sua vez, a Ordem Stella Matutina.
Waite estava decidido a corrigir muitos mal-entendidos e especulações que existiam acerca do Tarot, denunciando em sua obra A Chave pictórica do Tarot, publicada em 1910, a origem egípcia do mesmo, juntamente com outras fantasias pseudo-históricas muito difundidas. De fato, colocou o Tarot sob uma luz totalmente nova e marcou a pauta para a grande parte do que seria escrito sobre este tema durante todo o século XX:

"O Tarot é uma representação simbólica de ideias universais em que se baseiam a mente e o comportamento humano e, neste sentido, contém uma doutrina secreta na qual é possível aceder, pois, de fato, já está na consciência de todos nós, ainda que o homem comum passe pela vida sem reconhecê-la. Esta doutrina existiu sempre, quer dizer, sempre houve uma minoria capaz de aceder a ela e tem sido registrada e transmitida através de obras e tradições secretas como a Alquimia e a Cabala."

Uma importante contribuição de Waite à interpretação do simbolismo do Tarot foi a inclusão da alquimia junto à cabala.

Para Waite, a alquimia era um processo psicológico e espiritual onde a finalidade do adepto seria purificar seu ser interior alcançar níveis de consciência cada vez mais elevados. O Tarot desenhado por ele e projetado por Pamela Colman Smith foi publicado em 1910, pela empresa Rider & Co. (daí o nome Rider-Waite, pelo qual também é conhecido). Uma das muitas inovações introduzidas por Waite, e que já seriam seguidas por quase todos os taros posteriores, é a inclusão de cenas e paisagens nos Arcanos Menores.

O Tarot universal é uma atualização do Tarot de Waite, no qual se avivaram as cores e foram incrementados detalhes às ilustrações. Foram acrescentadas as letras hebraicas nos Arcanos Maiores e alguns detalhes foram modificados, sendo introduzi- dos outros procedentes da Golden Dawn, a fim de ressaltar algum ponto da simbologia. Da mesma forma, muito dos comentários deste livro sobretudo os divinatórios- acerca das diferentes cartas estão baseados nos ensinamentos da Golden Dawn

O Tarot de Crowley


Aleister Crowley
O nome de Waite é bem conhecido por todos os interessados no Tarot: o aluno mais famoso da Golden Dawn é sem dúvida o já mencionado Aleister Crowley (autodenominado "a Grande Besta", "Fater Perdurado" e "Mestre Therion").

Na sua vida são abundantes a excentricidade e o escândalo em seus rituais mágicos, por exemplo, as drogas e o sexo não eram ingredientes estranhos - não obstante, foi um sério estudioso do esoterismo, muito perceptivo e com uma grande imaginação. No ano de 1938, Lady Frieda Harris pediu-lhe que trabalhasse com ela num Tarot que pensava desenhar, influen ciada pela leitura do livro de Ouspenski, Um novo modelo do Universo (onde Ouspenski descreve com detalhes suas ideias e suas teorias sobre o Tarot, basicamente sob um enfoque cristão). A colaboração entre Harris e Crowley durou seis anos e o resultado foi um Tarot muito atraente e totalmente distinto dos exis- tentes até então, com uma rica simbologia procedente da cabala, da franco-maçonaria, dos rosa-cruzes, da magia, da alquimia, da psicologia, do budismo, da astrologia, da química e das matemáticas, por citar apenas algumas das tradições e das ciên- cias. No ano de 1944 - um ano antes da morte de Crowley - foram impressos apenas 200 exemplares, não sendo realmente editado até o ano de 1969.

Também em 1944, Crowley publicou sua obra-prima, O Livro de Toth, na qual explica seu Tarot com uma sensatez e uma originalidade que surpreendem seus detratores.

Tarot de Toth
Segundo ele, o Tarot devia ser entendido como uma representação pictórica das forças da Natureza, tal com as concebiam os homens da Antiguidade e conforme o simbolismo convencional. É bastante irônico que Crowley tenha intitulado sua obra O livro de Toth, pois ele não acreditava que houvesse vínculo histórico algum entre o Tarot e a antiga civilização egípcia, "inclusive no caso de que se chegara a conhecer, a origem do Tarot carece totalmente de importância", diz na introdução.

As ideias de Crowley sobre o Tarot eram basicamente as da Golden Dawn, enriquecidas com os novos descobrimentos científicos - tanto no campo da física como no da nova psicologia de Carl Gustav Jung - para ele, o Tarot era um instrumento simbólico, cuja utilização prática podia converter-se num caminho do conhecimento, da transformação e da iluminação.

Outros herdeiros da Golden Dawn: O Tarot de BOTA


Todos os Taros mencionados até agora e os personagens históricos relacionados com eles são marcadamente europeus. Entretanto, aproximando-se a terceira década do século XX. espirito americano irrompeu também no mundo do Tarot. As sociedades secretas, as referências veladas e os aristocratas excêntricos foram, pouco a pouco, cedendo seu lugar a organizações totalmente práticas, que não duvidaram de empregar para seus fins os mesmos meios que companhias como a Ford ou a General Motors utilizavam para incrementar suas vendas a cada ano.

Talvez a figura mais significativa desta época seja Paul Foster Case. Quando jovem, trabalhou no teatro como ilusionista e mago, sendo as cartas um dos seus instrumentos predile- tos. Posteriormente, seus estudos sobre o Tarot levaram-no ante o capitólio nova-iorquino da Golden Dawn, onde foi admitido no ano de 1910. Poucos meses depois, faleceu o líder e Paul Foster Case foi nomeado para substituí-lo, passando assim a converter-se na máxima autoridade da Golden Dawn nos Estados Unidos e no Canadá; não obstante, sua relação com o referido grupo foi-se deteriorando pouco a pouco, até que, final- mente, no ano de 1920, Case formou sua própria escola, a qual denominou Construtores do "Adytum", mais conhecida como BOTA por suas iniciais em inglês (Builders of the Adytum). Paul Foster Case publicou seu livro O Tarot em 1927 e o Tarot de BOTA em 1931, sendo este muito parecido ao de Waite, ainda que, com a particularidade de que os desenhos são em branco e preto, a fim de que o usuário os possa colorir pessoalmente. era algo parecido ao que se fazia na Golden Dawn. No ano de 1933, Case transportou BOTA para Los Angeles, onde construiu um templo colorido, dedicado ao Tarot e à cabala, a partir de onde começou a difundir seus cursos por correspondência a todo o mundo, os quais continuam sendo distribuídos com notável êxito em nossos dias, em vários idiomas. Paul Foster Case fez também seu aporte aos já numerosos mitos sobre a origem do Tano, criando-lhe, ou pelo menos lhe divulgando um novo cenário:

"Segundo uma certa tradição oculta, até pela qual me inclino, na realidade, o Tarot foi inventado lá pelo ano 1200 de nossa era, por um grupo de adeptos que se reuniam periodicamente na cidade de Fez, em Marrocos. Após a destruição de Alexandria, Fez converteu-se na capital científica e literária do mundo. Ali chegavam sábios de todos os países, cada um falando sua própria língua, o que complicava suas reuniões, devido às diferenças de língua e de terminologia filosófica. Assim, criaram um instrumento que incluísse os pontos mais importantes da sua doutrina, na forma de um livro de imagens, cuja combinação dependesse da oculta harmonia dos números."

Ainda que totalmente fundamentados nos ensinamentos da Golden Dawn, o enfoque de Paul Foster Case sobre o Tarot é novo e fresco, em parte porque, junto às associações cabalísticas de cada um dos Arcanos Maiores (também chamados "chaves" como na Golden Dawn), inclui uma interessante dimensão psi- cológica em que incorpora as teorias psicológicas de Freud e de Jung, acrescentando-lhe, além do mais, ao estudo das cartas, um aspecto mais aberto, mais americano. Case, que morreu no ano de 1954, foi substituído à frente do BOTA por Ann Davies.

O Tarot na segunda metade do século XX


Dois estudiosos do Tarot, procedentes também da Golden Dawn e que merecem ser mencionados são Manly P. Hall e Israel Regardie. O primeiro deles publicou um Tarot no ano de 1930, com base no de Oswald Wirth. Na sua obra, Um Ensaio sobre o Tarot, disse Manly P. Hall:

"As cartas não podem ser explicadas tão somente estudando os próprios hieróglifos, pois seus símbolos passaram por muitas fases e modificações. Uma geração trás outra redesenhou o Tarot, até finalmente deixar muito pouco do original. O estudante deve ver mais além das cartas e deve tra- tar de descobrir a psicologia que as produziu. Como qual- quer outra forma de simbolismo, o Tarot reflete inevitavelmente o ponto de vista de quem o interpreta. Isto não diminui seu valor, pois o simbolismo é um dos instrumentos mais práticos na aprendizagem das artes espirituais, já que extrai dos recursos subjetivos do pesquisador a substância da sua própria erudição."

Israel Regardie foi membro da Golden Dawn - na sua última fase - e discípulo de Aleister Crowley. Após romper com este em 1934, transferiu-se para a Califórnia, onde publicou quatro volumes sobre os documentos da Golden Dawn, revelando pela primeira vez ao público, os detalhes dos seus rituais e das suas práticas. Tanto Manly P. Hall como Israel Regardie viveram e continuaram publicando livros até fins da década dos oitenta.

A partir de 1970, as obras sobre o Tarot e os novos desenhos dos Tarôs proliferaram de maneira surpreendente, sendo em geral a qualidade quase tão notável como a quantidade. A produção de Tarôs, tanto nos Estados Unidos como nos diversos países europeus destacando-se entre eles a Itália - não cessou de aumentar, e a beleza e a originalidade de alguns novos desenhos é admirável, muitos deles, inclusive, rompendo com as rígidas teorias e os significados historicamente consignados às cartas. Ao mesmo tempo, o fato de que eruditos amplamente reconhecidos como Mircea Eliade e, principalmente, Carl Gustav Jung- tenham se ocupado com toda seriedade aos temas chamados "esotéricos", entre os quais o Tarot ocupa um lugar especial, conferindo-lhe uma categoria de que nunca antes - pelo menos na história atualmente conhecida - houvesse desfrutado. De outra parte, o interesse do público por este instrumento de adivinhação e de autoconhecimento parece ter disparado nos últimos anos. Nos primórdios do século XXI, o Tarot é um dos temas incandescentes da chamada "Nova Era", vendas de Tarôs e de livros sobre eles -que durante quase duas e as décadas estavam enlanguescidas - estão experimentando um inusitado ressurgimento. As páginas da Internet dedicadas ao Tarot são muito abundantes - tanto as informativas como as que oferecem leitura linear e a qualidade de algumas delas é mais que notável. Tudo parece indicar que o presente século será o século do Tarot.

Edith Waite

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