19 de jul de 2017

Carl Jung: Obstáculos ao Crescimento Psicológico

A individuação nem sempre é uma tarefa fácil ou agradável, e o indivíduo precisa ser relativamente saudável em termos psicológicos para começar o processo. O ego precisa ser forte o suficiente para suportar mudanças tremendas, para ser virado pelo avesso no processo de individuação.

"Poder-se-ia dizer que todo o mundo, com sua confusão e miséria, está num processo de individuação. No entanto, as pessoas não o sabem, esta é a única diferença. A individuação  não é de modo algum uma coisa rara ou um luxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo processo são considerados afortunados. Desde que suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal processo." (Jung, 1973, p. 442)

A dificuldade deste processo é peculiar porque constitui um empreendimento totalmente individual, levado a cabo face à rejeição ou, na melhor das hipóteses, indiferença dos outros. Jung escreve que:

"a natureza não se preocupa com nada que diga respeito a um nível mais elevado de consciência; muito pelo contrário. Logo, a sociedade não valoriza em demasia essas proezas da psique; seus prêmios são sempre dados a realizações e não à personalidade, esta última sendo, na maioria das vezes, recompensada postumamente". (Jung, 1913, p. 394)

Cada estágio, no processo de individuação, é acompanhado de dificuldades. Primeiramente, há o perigo da identificação com a persona. Aqueles que se identificam com a persona podem tentar tornar-se "perfeitos" demais, incapazes de aceitar seus erros ou fraquezas, ou quaisquer desvios de seu autoconceito idealizado. Aqueles que se identificam totalmente com a persona tenderão a reprimir todas as tendências que não se ajustam, e a projetá-las nos outros, atribuindo a eles a tarefa de representar aspectos de sua identidade negativa reprimida.

A sombra pode ser também um importante obstáculo para a individuação. As pessoas que estão inconscientes de suas sombras, facilmente podem exteriorizar impulsos prejudiciais sem nunca reconhecê-los como errados. Quando a pessoa não chegou a tomar conhecimento da presença de tais impulsos nela mesma, os impulsos iniciais para o mal ou para a ação errada são com freqüência justificados de imediato por racionalizações. Ignorar a sombra pode resultar também numa atitude por demais moralista e na projeção da sombra em outros. Por exemplo, aqueles que são muito favoráveis à censura da pornografia tendem a ficar fascinados pelo assunto que pretendem proibir; eles podem até convencer-se da necessidade de estudar cuidadosamente toda a pornografia disponível, a fim de serem censores eficientes.

O confronto com a anima ou o animus traz, em si, todo o problema do relacionamento com o inconsciente e com a psique coletiva. A anima pode acarretar súbitas mudanças emocionais ou instabilidade de humor num homem. Nas mulheres, o animus frequentemente se manifesta sob a forma de opiniões irracionais, mantidas de forma rígida. (Devemos nos lembrar de que a discussão de Jung sobre anima e animus não constitui uma descrição da masculinidade e da feminilidade em geral. O conteúdo da anima ou do animus é o complemento de nossa concepção consciente de nós mesmos como masculinos ou femininos, a qual, na maioria das pessoas, é fortemente determinada por valores culturais e papéis sexuais definidos em sociedade.)

Quando o indivíduo é exposto ao material coletivo, há o perigo de ser engolido pelo inconsciente. Segundo Jung, tal ocorrência pode tomar uma de duas formas. Primeiro, há a possibilidade da inflação do ego, na qual o indivíduo reivindica para si todas as virtudes da psique coletiva. A outra reação é a impotência do ego; a pessoa sente que não tem controle sobre a psique coletiva e adquire uma consciência aguda de aspectos inaceitáveis do inconsciente - irracionalidade, impulsos negativos e assim por diante.

Assim como em muitos mitos e contos de fadas, os maiores obstáculos estão mais próximos do final. Quando o indivíduo lida com a anima e o animus, uma tremenda energia é libertada. Esta energia pode ser usada para construir o ego ao invés de desenvolver o self. Jung referiu-se a este fato como identificação com o arquétipo do self, ou desenvolvimento da personalidade-mana (mana é uma palavra malanésica que significa a energia ou o poder que emana das pessoas, objetos ou seres sobrenaturais, energia esta que tem uma qualidade oculta ou mágica). O ego identifica-se com o arquétipo do homem sábio ou mulher sábia, aquele que sabe tudo. (Esta síndrome é comum entre os professores universitários mais velhos, por exemplo.) A personalidade-mana é perigosa porque é excessivamente irreal. Indivíduos parados neste estágio tentam ser ao mesmo tempo mais e menos do que na realidade são: mais, porque tendem a acreditar que se tornaram perfeitos, santos ou até divinos, mas na verdade, menos, porque perderam o contato com sua humanidade essencial e com o fato de que ninguém é plenamente sábio, infalível e sem defeitos.

Jung viu a identificação temporária com o arquétipo do self ou com a personalidade-mana como sendo um estágio quase inevitável no processo de individuação. A melhor defesa contra o desenvolvimento da inflação do ego é lembrarmo-nos de nossa humanidade essencial, para permanecermos assentados na realidade daquilo que podemos e precisamos fazer, e não naquilo que deveríamos fazer ou ser.

"Não é perfeição, mas totalidade o que se espera de você." (Jung, 1973, p. 97)


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Referência: Teorias da Personalidade, 1939. James Fadiman, Robert Frager.
Por: Isabela F. Meira (www.psicosmica.com)
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