2 de mai de 2017

Conto Umbandista: Renascendo com o Preto Velho - Por: Pirro D'Obá











Por: Fernando Ribeiro (Pirro D'Obá)

Aquele dia eu acordei com um sentimento diferente do normal. Tudo parecia longe; o barulho, os objetos, meu corpo parecia estar anestesiado por algo que eu não conseguia entender.

Nos últimos tempos eu andava meio agitado, tinha perdido meu emprego, me afastado dos amigos, terminado meu relacionamento; a verdade é que o meu mundo não era mais o mesmo e isso estava me angustiando. Rancores antigos vinham à tona e tomavam meus pensamentos, não tinha fome nem sede, meu único desejo era voltar a ativa novamente, encontrar um novo trabalho e ter dinheiro para bancar meu estilo de vida de antes.

Mas hoje, o dia estava realmente diferente e eu não entendia o motivo. Estava nebuloso, torpe... Foi quando eu decidi ir para um parque aqui perto de casa, iria aproveitar essa brisa estranha para tentar colocar algumas ideias no lugar, repensar algumas coisas.

Ali sentado no banco do parque via muitas pessoas; idosos, adultos e crianças. Cada um em sua vida experimentando do momento presente, uns sorrindo, outros sérios e eu a me perguntar; como é possível em um mundo como o nosso, termos tantos universos particulares dividindo um mesmo espaço? Como é possível tantas pessoas, cada uma em seu universo particular, com suas dores, problemas, alegrias, todas convivendo juntas numa esfera de compartilhamento?

A verdade é que eu não me questionava sobre determinadas coisas antes de passar pelas minhas perdas recentes. E eu até me envergonhava por isso, sabia da minha negligência perante a fatores da minha vida. Sempre fui apegado a status, sempre gostei de fazer projetos futuros, mas nunca fui de pensar sobre o meu presente, sobre questões realmente pertinentes a mim mesmo.

Fiquei ali por uma hora mais ou menos, até que um cara de mais ou menos trinta anos se aproximou e perguntou se eu aceitava um pouco da pipoca que estava comendo. Eu educadamente não aceitei, acenei com um sorriso.

Ele tinha um olhar sereno e perguntou se podia sentar, eu disse que sim. Ele nem esperou muito e apenas me disse que entendia o que eu estava passando, que essas crises eram necessárias para colocarmos a mente no lugar, que o ser humano devia ser grato por ter oportunidades como essa da qual eu estava passando.

Fiquei atônito, como aquele cara sabia que eu estava aflito? Será que eu deixei isso transparecer tanto assim?

Ele continuou, me disse que desde os primórdios os homens que realmente construíram algo edificante na vida foram aqueles que atravessaram tempestades, que se deixaram levar pela esquizofrenia da existência.

Ele dizia essas coisas com um pequeno sorriso no rosto, olhando as árvores ao redor. E eu apenas escutava.

Por fim, ele virou pra mim e me disse: - Amigo, converse com o Preto Velho, daqui a duas horas eles começarão ao outro lado da rua um culto em homenagem aos Vovôs e Vovós de Umbanda, e mesmo que você tenha esse seu pendor meio cético das coisas, poderia ir lá deixar sua mente flutuar um pouco.

Ele colocou a mão em meu ombro, acenou com a cabeça e foi embora em passos lentos.

Ali eu fiquei por mais alguns minutos refletindo sobre aquela loucura que acabara de acontecer. Primeiro, uma pessoa estranha que nunca vi ser gentil comigo e me oferecer pipoca; segundo, dizer coisas a respeito da minha vida sem nem saber quem eu sou; terceiro, falar de um culto a respeito de uma religião que não entendo nada. Somado ao dia que eu estava tendo, tudo aquilo me empurrou ainda mais no processo líquido e anestésico que eu estava vivenciando.

Levantei e fui numa padaria do outro lado da esquina, tomei um suco, me olhei num espelho que havia lá dentro. Realmente, todo o controle que eu achei um dia ter sobre a vida, hoje sabia não o ter, e de certa forma tudo aquilo que o cara dissera fazia algum sentido pra mim.

Afinal, quem seria o Preto Velho que ele citara?

Acabei decidindo seguir o conselho dele e ir ao culto umbandista. E ao entrar, meio acanhado, pessoas de branco diziam que eu era bem-vindo, me deram uma senha e pediram para que eu sentasse. Observei que ali dentro haviam muitas imagens de variadas formas, negros, brancos. Um Jesus Cristo no altar realmente fisgou minha atenção.

Eu jamais havia entrado num lugar daquele, conheci pessoas no passado que eram umbandistas, mas nunca me aprofundei em querer saber algo a respeito.

De repente o culto começou. Orações, cantos e de repente o sacerdote da casa estava com um turíbulo defumando o ambiente. Defumou a todos, e a mim inclusive. O cheiro era muito agradável, me fez lembrar de minha avó quando fazia chá de ervas naturais.

O culto continuou e começaram a cantar para alguns nomes. Ouvi o nome Ogum em cinco músicas seguidas, depois Yemanjá, Oxum, Nanã, Xangô e por último um tal de Obaluaê.

Ao cantarem para Obaluaê, eles começaram a se encurvar como velhos mancos, algumas pessoas jogavam um pano branco sobre aqueles que estavam em processo de transe. Aquilo mexeu muito comigo, e de um jeito estranho fui acometido por uns arrepios nas costas.

O sacerdote fez uma pausa de aproximadamente sete minutos para descanso, e quando voltaram cantaram para o tal do Preto Velho. Eram músicas poéticas que falavam do tempo da escravidão, falavam de cura, de sabedoria. E alguns médiuns começaram a tremer, sentando em banquinhos, acendendo alguns cachimbos, cigarros de palha, pediam café. Achei aquilo cômico a princípio, mas os minutos iam passando e aqueles que estavam sentados pareciam muito sérios e intensos no que estavam fazendo. Eu me sentia muito bem com aquilo tudo.

De repente, uma mulher idosa chamou pelo meu número, e eu me dirigi a ela. Me disse para conversar com um moço de mais ou menos vinte e cinco anos que estava incorporado. E pra lá eu fui.

Ao chegar, sentei no chão. Olhei nos olhos dele que estavam fechados, e ele pegou em minhas mãos. Ficou em silêncio por um minuto mais ou menos e eu fiquei confuso. Logo me perguntou: “Sair da zona de conforto é complicado né, meu filho?”...

Eu respondi que sim com a cabeça. E ele continuou: “Sabe, a vida as vezes nos deixa viver anos e anos sem “pobrema” nenhum, deixa que a gente regozije ao máximo de alguns “prazer” da vida, a vida, ah essa danada da vida”... Ele deu uma risadinha pro chão e segurando em minhas mãos continuou: “Você tem saudade filho? De sua vida de antes?”

Eu respondi que sim, um pouco, pois antes as coisas pareciam estar mais sob controle, e que eu não estava sabendo lidar com essa minha instabilidade.

O Preto Velho disse: “Pois é, hoje você sabe “melhó” que não existe só a ti no mundo né meu filho, que as coisas tem uma profundidade “maió” do que a superficialidade das coisas materiais. “Trabalhadô” todo mundo precisa, boas coisas pra comer todo mundo quer, ser bem quisto todo mundo almeja. Mas, e viver uma vida de reflexão, uma vida de conhecimento de si mesmo, uma vida onde o nosso porão é mais importante do que a fachada de nossa casinha? É importante não valorizar a fachada meu filho, o porão tem muita coisa pra libertar”

Aquelas palavras me tocaram, ele parecia entender muito bem das questões humana. E ele continuou sem titubear: “É meu filho, dentro desse seu porão tem muita coisa boa, tem muito sentimento bom, tem muita vontade de construir coisas realmente boas pra si e pro mundo, mas por muito tempo tu se manteve atento em coisas dispersas. Você se afastou de si mesmo meu filho”.

Me diz meu senhor, o que eu faço? Me diga, o que eu preciso fazer pra conseguir me encontrar? Me diz como faço pra aguentar tudo isso, está muito difícil. As vezes acho que não vou suportar.

“Filho. A resposta tá em si mesmo, é na sua dor que tu vai se fortalecer. Tu já viu alguém se fortalecer na alegria e na felicidade apenas?”

Antes eu achava que sim meu senhor.

“Pois é, a felicidade possível é a felicidade de quem aprendeu com as dores meu filho. O nome disso é resignação. Desistir da superficialidade da matéria, “mergulhá” em si mesmo, eis o caminho. Sei que as palavras do nego véio aqui parecem simples demais, mas vai por mim meu filho, tudo se ajeita se você colocar seu porão acima da fachada”.

Não meu senhor, suas palavras me serviram demais, eu tenho muito a agradecer por me ajudar dessa forma. Por muito tempo eu esqueci das coisas que realmente tem valor pra mim.

Eu estava chorando muito e beijava as mãos daquele médium, ou melhor, daquele Preto Velho, eu já não sabia os limites entre as coisas que ali aconteciam. Ele pediu para eu fechar os olhos, que iria me dar um passe, percebi um galho de arruda em sua mão e baforando a fumaça de seu cachimbo deu algumas estaladas de dedos nas minhas costas e nos meus ombros. Nesse mesmo momento parei de chorar, como mágica eu fiquei sóbrio, leve. Eu olhei e em seus olhos, estava sereno, como um anjo que havia resgatado alguém perdido, um anjo que acabara de me trazer de volta, havia devolvido a mim a oportunidade de reinterpretar a mim mesmo.

Ele perguntou se eu queria algo mais ou dizer algumas coisas, e a única palavra que surgiu a minha mente foi “gratidão”. Repeti para ele umas dez vezes a palavra gratidão e me retirei de volta para área dos consulentes.

A moça que havia pego a minha senha me olhava com um sorriso no rosto. Eu fiquei ali por mais alguns minutos hipnotizado com a imagem de Cristo no altar. Não pensava em nada, todo o rancor, toda a angústia, todo o peso havia ido embora, e eu tinha uma vontade imensa de amar, de fornecer algo pro mundo que nunca forneci antes. Eu estava vendo além da matéria.

Saí dali e decidi ir a pé para casa, respirar mais fundo, suspirar o mundo que agora parecia mais poético, mais colorido.

Eu não sabia o nome do cara que disse para eu ir naquele terreiro, eu não sabia o nome do médium que deu passagem para aquele Preto Velho, e eu não sabia ao menos o nome daquele que foi o responsável pela catarse em minha vida. Mas, uma coisa é certa, aquele Preto Velho me veria de novo com certeza. E a maior marca de sua passagem em minha vida será sempre essa luz em meu porão. E a única palavra que tenho pra falar sobre esse dia é “Gratidão”. Gratidão por estar vivo novamente, gratidão por ter visto as coisas por uma outra perspectiva.
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