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2 de jun de 2017

A História de "Pai Félix", fundador do Primado de Umbanda de São Paulo

Félix Nascente Pinto nasceu em 1º de Abril de 1900, em Macaé, no Estado do Rio de Janeiro. Em 1911, mudou-se para a capital. Aos 25 anos, sentiu sua primeira manifestação mediúnica, e foi procurar aquele que teria um forte impacto em sua jornada dentro da Umbanda, o então o senhor Benjamim Gonçalves Figueiredo, que possuía uma tenda de Umbanda na Rua São Paulo.


Felix começou ali, na Tenda Espírita Mirim, seu desenvolvimento. Assim amparado, e com muita vontade de trabalhar e pesquisar, começou seu estágio.

Em virtude da grande perseguição que naquela época sofria a Umbanda no Distrito Federal, achou Benjamim que o noviço Félix deveria ir para a Bahia. Foi então para Salvador, ficando com José da Silva Costa, da “Nação Angola”, e que também era conhecido como José do Mocotó, em virtude de morar na Rua do Mocotó, no bairro de Praia Grande. A respeito dessa época, Félix contava:

“Onde José da Silva Costa põe o pé, eu coloco a mão. Gostaria de ser um José do Mocotó. A ele rendo minhas homenagens e respeito.”

Durante quase um ano, Félix ficou ali, até sua “feitura de cabeça”.

Após a revolução de 1930, transferiu-se para São Paulo, encontrando também bastante dificuldade e acirradas perseguições aos umbandistas, mas a sua fé era inabalável, e continuou seu trabalho graças à proteção dos Guias.

Félix queria saber mais sobre Umbanda e, voltando para o Rio de Janeiro, cursou com aproveitamento a Escola de Formação de Chefe de Terreiro (CCT), na Tenda Espírita Mirim, no período de 1937 a 1940.

Voltando para São Paulo, encontrou, no bairro de Vila Anastácio, um casal que muito às escondidas praticava a Umbanda, Félix juntou-se a eles continuando a praticar o culto. Passaram-se os anos, Félix percebeu que já estava na hora do Culto Umbandista impor-se. Em 1950, fundou sua própria Tenda, a Tupã oca do caboclo Arranca Toco, só quando recebeu a ordem para montá-la, a qual até hoje funciona dentro dos princípios e ensinamentos deixados por Ele.

Em 1952, apesar das perseguições e outras perturbações, resolveu levar a Umbanda para a rua, fazer uma grande festa pública. Com muito sacrifício, essa festa foi feita no SENAC, na Rua Galvão Bueno, no bairro da Liberdade. Era em homenagem a Oxossi. Foram convidadas 11 Tendas do Rio de Janeiro e algumas de São Paulo. A delegação carioca era comandada pela pessoa que guiou seus primeiros passos, Benjamim Gonçalves Figueiredo.

Félix foi convidado a criar em São Paulo, uma Delegacia do Primado do Rio. Assim, reuniu várias tendas em São Paulo, registrando-as no Distrito Federal. O crescimento da Delegacia, entretanto, fez com que logo depois, em 1960, ele fundasse o Primado de Umbanda do Estado de São Paulo. Já havia, então, 70 tendas filiadas.

Daí para a frente, Félix aprimorou-se dentro da Umbanda, na preparação de médiuns, pois segundo suas próprias palavras:

“Trata-se de algo muito complicado e profundo, mexer com a cabeça de quem tem santo de modo errado, causa grande dano.”

Preparou em sua vida cerca de 400 médiuns “confirmados” e muitos estão com as suas tendas abertas, praticando a Umbanda e transmitindo os ensinamentos aprendidos.

Entre as muitas alegrias que teve no transcorrer de sua vida, a que o marcou profundamente foi relatada por ele a uma revista chamada “Umbanda”, da Editora Alves em 1973:

“Já tive várias alegrias, mas, modéstia à parte, o que mais me alegrou aconteceu em uma festa de aniversário da Tenda Mirim: participavam dessa festa todas as filiais dessa tenda, umas 50, todas feitas por Benjamim, e cada qual com sua sede própria. Eu, na qualidade de dirigente de tenda aqui em São Paulo, chamando-o de pai como o chamo até hoje, tive a primazia, coisa que me comove até hoje, quando o Caboclo Mirim, que é o guia chefe daquela organização, passou para mim o comando da festividade. Essa foi uma das maiores emoções que já tive na Umbanda, pois, francamente, eu não merecia receber tantas honrarias como recebi diante do chefe. Outras alegrias e emoções vieram através de manifestações de espíritos em forma de caboclos, preto-velhos, exus, etc, que em um ato de magia têm realizado coisas maravilhosas. Eu me sinto felicíssimo nesses 47 anos de Umbanda”.

Participou de vários momentos em prol da Umbanda:

  • Em 1953, realizou a primeira festa em homenagem a lemanjá na Praia Grande, com um grande número de tendas e médiuns.


  • No dia 8 de fevereiro de 1969, na Rua Maria Marcolina, nº 495, em São Paulo, “sede do Primado de Umbanda” e sede provisória do SOUESP, foram aprovados os estatutos em assembléia geral do SOUESP.


  • Posteriormente em 27 de junho do mesmo ano, a entidade foi registrada no livro A-19, no cartório do Primeiro Ofício de Registro de Títulos e Documentos, sob o nº 19.571, sendo este órgão fundado como I Congresso Umbandista do Estado de São Paulo, posteriormente, Comissão Executiva Permanente do Congresso Umbandista do Estado de São Paulo.


  • O Primado de Umbanda foi uma das entidades que organizaram este congresso, no qual, o Sr. Félix foi nomeado tesoureiro, tendo como presidente o coronel Nelson Braga.


  • Em março de 1968, representou o SOUESP no Almoço de confraternização da Família Umbandista do Vale do Paraíba.


  • Deu nome ao bairro Vila Mirim do município de Praia Grande (litoral paulista), em homenagem ao Caboclo Mirim, entidade de seu Pai Benjamim.


Foi um dos primeiros umbandistas a realizar festas em Ginásio, em que se reuniam um número muito grande de umbandistas. Inclusive, a revista “Acontecimentos de Umbanda”, em 11/1965, o chamou de “o realizador”, em referência à festa em homenagem a Oxóssi realizada no dia 19 de Setembro de 1965, em comemoração ao 5° aniversário do Primado.

Em 12/1976, “seu” Félix já falecido, ganhou uma rua com seu nome. Foi o primeiro umbandista a receber esta homenagem. No dia 06 de novembro de 1976, o Diário Oficial do Município publicou o Decreto 13.871, assinado pelo prefeito Olavo Egídio Setúbal, cujo artigo 1º diz:

“Fica denominada Félix Nascente Pinto a avenida Quatro, no Jardim Helena, em São Miguel Paulista (começa na Rua Dr. José Artur da Nova, entre as Ruas Cinco e Oito). No artigo 2°, diz: “deverá constar na placa: “UMBANDISTA – 1975”

Em 1970, dentro das dependências do Primado de Umbanda foi criado o Hino da Umbanda, de autoria de J. M. Alves, o qual era frequentador da casa, e o Hino foi gravado pela curimba da tenda do Sr. Félix, que gravou outro disco em 1973.

Enfim, participou de vários encontros de dirigentes, seminários, debates na televisão, fundou órgãos de defesa da Umbanda, jamais escondeu sua condição de Líder Umbandista.

Palavras usadas por Félix Nascente Pinto, ouvidas de seu Pai Benjamim:

“Umbanda é coisa séria para gente séria”

e ainda, com suas palavras:

“Umbanda prega amor e caridade sem ter covardia. Se formos atacados, nós nos defendemos através dos Orixás, caboclos, Preto-Velhos e assim por diante. Todos os Umbandistas moram no meu coração e merecem o meu respeito; assim, faço com que eu também more em seus corações. Não considero ninguém mau, alguns agem erradamente por ignorância ou falta de conhecimento, sem falar nos aventureiros, que infelizmente estão infestando nosso meio. Eles se aproveitam do rótulo de Umbanda para fazer uma série de patifarias. Os católicos se dizem irmãos em Cristo, e nós somos irmãos em Oxalá, que tem como representação a imagem de Jesus Cristo. O verdadeiro Umban­dista deve tratar a todos e aceitar a todos sem nenhum preconceito de raça, cor ou posição social”.

Félix viveu uma vida em prol da Umbanda; ao desencarne, completava 50 anos de estudos e prática de Umbanda e candomblé (embora só praticasse a Umbanda). Fez sua “grande viagem” no dia 20 de setembro de 1975, deixando uma lacuna jamais preenchida dentro dos corações de quem com ele conviveu. Seus ensinamentos estão vivos nas mentes em que foram semeados.


Numa lição de amor, humildade, caridade e abnegação, pois nem na doença ele se afastou de seus “filhos”, ensinou a todos os umbandistas o quanto é difícil permanecer fiel ao sentimento nobre e puro de servir aos irmãos necessitados sem se envaidecer ou endeusar. 


Fonte. blog.mataverde.org
Pesquisado por Márcio Licastro Citro

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