23 de nov de 2016

Umbanda Omolokô


Continuando a série "Vertentes da Umbanda" , iniciada a partir da publicação "Umbanda Esotérica e Iniciática" onde passeamos segundo nossos entendimentos pelos principais acontecimentos que desencadearam o movimento esotérico e iniciático, a partir de seus percursores seguindo estudos bibliográficos, artigos e textos pela internet. O estudo das vertentes da Umbanda passa também pela compreensão de alguns fatores causais que contribuíram para eclosão dos diferentes segmentos.


A diversidade étnica e cultural base de nossa sociedade é ou foi o fator primário, a não sistematização dos cultos abriram precedentes para uma prática plural e miscigenada, vista por muitos em vários casos como "marginalizados", inclusive considerando-as baixo espiritismo. Em contraponto, os movimentos federativos que aglutinavam os individuais (terreiros), visavam representação política frente ao governo, sobretudo de uma legislação opressora, preconceituosa e perseguidora. 

O Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, em 1941,  tinha por finalidade normatizar a religião em uma doutrina comum à todos, aglutinou-se então  lideranças diversas para que apresentassem suas teses e conceitos sobre o surgimento, questões doutrinárias, ritualísticas entre outras. Existiu também a necessidade de embasamento científico que aproximasse a religião das culturas cristãs, este viés é reconhecido por grande parte dos pesquisadores e para boa parcela deles isso aconteceu pela necessidade afirmação da Umbanda como religião perante ao governo e sociedade, podemos considerar esta fase, como o  "embranquecimento" da Umbanda, pois, valorizava-se muito mais o "cientificismo" próprio da doutrina kardecista e do positivismo do que das raízes culturais e práticas que a Umbanda então herdava dos africanos e indígenas. Essa ideologia serviu para que o movimento Omolokô ganhasse militância e seu reconhecimento dentro do universo umbandista. 

Tata Tancredo
Tancredo da Silva Pinto (Tata Ti Inkice), conhecido por Tata Tancredo foi o principal nome do movimento Omolokô sendo o responsável por coordenar toda a estrutura política pelos movimentos federativos, quanto doutrinárias pela condução de terreiros e publicações de livros sobre a Umbanda Omolokô, um muitas fontes é tido como o "Organizador do culto Omolokô".

Defendia a origem e fundamentação da Umbanda como herança de povos africanos de Angola do grupo Luanda-Quiôco, para isso é dele a seguinte afirmativa reproduzida em tantos veículos de informação que tratam da questão...“a Umbanda é  africana, é um patrimônio da raça negra”.

Tata Tancredo fundou em 1950 a Confederação Umbandista do Brasil e viajou a diversos estados auxiliando e incentivando a criação de instituições que agregassem terreiros com fundamentações provenientes de cultos afro-brasileiros praticados na Umbanda, era uma verdadeira frente de resistência pelos fundamentos africanos na religião. Era também sacerdote e segundo o excelente estudo publicado no blog Uniafro teve mais de 3.566 "filhos de santo" iniciados. Outra característica importante de Tata Tancredo, foi o legado bibliográfico deixado para o movimento Omolokô e foram mais de 30(trinta) livros, alguns deles em parceria com Byron Torres de Freitas. Abaixo reproduzimos a lista de algumas obras publicadas por Tata Tancredo, que extraímos da publicação Tata de Inkice Tancredo da Silva Pinto através da CEUB:

  • Negro e Branco na Cultura Religiosa Afro Brasileira – Os Egbás
  • Tecnologia Ocultista da Umbanda no Brasil
  • A Volta dos Orixás 
  • Doutrina e Ritual de Umbanda
  • Primado de Umbanda
  • Guia e Ritual para Organização dos Terreiros de Umbanda 
  • Doutrina e Ritual de Umbanda – Tancredo da Silva Pinto 
  • As Mirongas de Umbanda 
  • Tecnologia Ocultista da Umbanda Brasil
  • Origens da Umbanda
  • O Eró
  • Cabala Umbandista
  • Iaô
  • Camba de Umbanda
  • Impressionantes Cerimônias da Umbanda
  • Fundamentos da Umbanda


FUNDAMENTOS DA UMBANDA OMOLOKÔ

Nascido no Rio de Janeiro, que é o estado berço da Umbanda, o movimento Omolokô é conhecido por praticar a caridade espiritual em sessões mediúnicas por incorporações de guias espirituais como (Preto-Velhos, Caboclos, Exús...) com fundamentações rito litúrgicas muito aproximadas dos cultos de raiz afro-brasileiras, como o Candomblé por exemplo. É necessário o esclarecimento que ao nosso entendimento é importantíssimo... Omolokô não é Candomblé, mais sim uma vertente de Umbanda com forte influência de cultura africana, em muitos casos é conhecido como Umbandomblé. 

Ainda seguindo os estudos do blog Uniafro, verificamos o significado do termo Omolokô indicado por Tata Tancredo como : "Omolokô é uma palavra Yoruba: OMO - filho e OKO - fazenda, era a zonal rural ou de difícil acesso onde eram realizados os rituais, escolhidos para fugirem da repressão policial que havia naquela época... Talvez por causa disso hoje temos as denominações terreiro e roça para os lugares onde os cultos afro-brasileiros são realizados". Outros pontos são muito comuns com o Candomblé principalmente e aparecem nos rituais e fundamentos destes terreiros, mais as variações existem, de acordo com cultura de cada casa em geral apresentam as seguintes características: 


  • Ritos iniciáticos dos "filhos de santo" ou neófitos, para ingressarem na escala evolutiva de formação e aprendizado da cultura Omolokô, podem genericamente apresentar as fases ou "obrigações": Ebó, batismo, catulação, oborí ou borí, camarinha para recolhimento e saídas festivas entre outras iniciações.
  • Além dos ritos de iniciação, há também Hierarquia Sacerdotal com termos comumente conhecidos nos cultos de nação, como por exemplo: Babalorixá, Yalorixá, Dagã, Yabasé ou Yabá e outros já familiarizados com o universo umbandista como Ogã e Cambono ou Combono.   
  • Os Orixás cultuados em geral são: Oxalá, Ogum, Oxossi, Obaluaê, Omolú, Ossain, Nanã, Oxumarê, Odé, Oxum, Iemanjá, Xangô, Iansã/Oyá, Irokô/Lokô, Ibeji/Erê. 
  • Os trajes e paramentos são mais destacados em relação a outras vertentes da Umbanda que preferem apenas o uniforme branco, no caso da Omolokô aproximam-se bastante das tradições afro-brasileiras.
  • As entidades espirituais mais presentes e destacadas envolvidas com a cultura Omolokô são: Caboclos, Preto-velhos e Exús, mais isso não é uma regra de exclusividade, outras como Marujos, Boiadeiros, Baianos, Ciganos e Crianças também estão presentes nestas casas. 
  • Um dos pontos mais polêmicos é sobre os sacrifícios animais em seus rituais, uma realidade existente em alguns terreiros de Omolokô, pois, seguem tradições tão conhecidas e oriundas dos cultos de nação. Para isso é bom o leitor compreender que não estamos generalizando a prática para 100% do movimento muito menos reprovamos seu uso, apenas devemos perceber que em meio a tanta discussão sobre a utilização ou não no meio umbandista ainda existem terreiros realizando-as. Para reflexão acerca do tema indicamos a leitura da artigo Sacrifício de animais não é tudo!, que certamente ajudará nossos sentidos a entender o significado do uso pelo movimento Omolokô.               


Passando longe de qualquer discussão sobre as práticas desenvolvidas pelo movimento Omolokô serem ou não de Umbanda, mesmo com tantos registros históricos delineando as frentes defendidas e perpetuadas, por Tata Tancredo, como um dos movimentos umbandistas então surgidos e organizados após o advento do Caboclo das Sete Encruzilhadas, ainda sim há quem não os credite ou perceba que sim ! Omolokô é Umbanda também !

As semelhanças com os cultos de nação afro-brasileiros são naturais, sobretudo no tocante aos ritos iniciáticos e graus sacerdotais, acredita-se que este tipo de "Umbanda" ou "culto" tenha vindo dos povos Bantos angolanos, ou seja, segundo suas crenças, o culto religioso já existia antes mesmo de vir para o Brasil pelos então negros escravizados, e mesmo que tenham passado por um processo de aculturação e assimilação dos costumes e formas que o Brasil apresentou para estes, de tempos em tempos sua forma foi se amoldando chegando no produto que conhecemos hoje como Umbanda Omolokô.

Mais uma vez agradecemos o fato da Umbanda não ter uniformidades de pensamentos, ideologias e rituais, ser plural como a cultura brasileira é o que a torna mais brasileira ainda! Axé e boa semana !   


Referências

História da Umbanda no Brasil (Diamantino Fernandes Trindade)
História da Umbanda - Uma religião brasileira (Alexandre Cumino)

Fonte. http://www.nomundodasumbandas.com.br/
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