17 de mar de 2016

As opiniões e a nossa Essência


Um dos grandes desafios do ser humano ao longo de sua vida é se livrar daquilo que não é seu, mas que a sociedade insiste em dizer que é.

Quando acreditamos nos adjetivos que as pessoas atribuem a nós, corremos o risco de nos perder no labirinto de nossa identidade. Entregamos de bandeja a nossa essência aos padrões, as especulações, as necessidades das pessoas de nos rotularem.


Aos olhos de uns nós somos bons, aos olhos de outros nós somos ruins. Um passo que damos podemos inverter essa lógica. Pessoas que gostavam de nós podem deixar de gostar num passe de mágica. E tudo o que se construiu pode se desfazer simplesmente por um pensamento diferente, um posicionamento político divergente...

O que há no mundo é a necessidade em agradar para ser aceito. Fazemos muitos amigos dessa forma. E quando mostramos o que pensamos, ou quando mostramos a nossa verdadeira essência corremos o risco de não agradar e ainda sofrer retaliação por isso.

A verdade é que adjetivos de nada valem. Não acredite em elogios e nem em críticas, não tenha esse parâmetro como prioridade para o seu desenvolvimento como ser humano. Pois o que realmente somos, o que realmente faz a nossa alma vibrar, o que realmente colore o nosso mundo precisa estar primeiramente dentro de nós e não na opinião das pessoas.

O risco de se acreditar ou dar valor demasiado ao que pensam sobre nós (seja positiva ou negativamente) é que sem perceber comecemos a viver nossa vida tendo essa tônica como lógica de nossa rotina.

O importante não vem dos outros, não vem de elogios e nem de críticas; vem de nós, nosso coração.
Vivamos as nossas vidas com o desapego necessário, com imparcialidade e que as pessoas que estejam ao nosso lado e que temos real apresso não estejam interessadas em nos mudar, mas que sim estejam afim de usufruir da nossa real essência..

Que possamos dividir essências, criar valores baseados em essência… Pois adjetivos e opiniões não servem pra nada a não ser criar uma divisão sobre o que é bonito ou feio, certo ou errado, preto ou branco… E convenhamos, o mundo, o universo, nossa ipseidade, vão muito além disso.

O desapego por si só pode enfim fazer com que consigamos nos distanciar de certos preconceitos enraizados... Desfazer aquilo que Foucault chamou de "construções sociais". Dessa forma, quanto mais ampliarmos a questão sobre essas construções que enlaçam nossa mente e nosso corpo desde a infância, mais livres tendemos a ser ou buscar ser.

Obviamente, não conseguiremos extrair em totalidade o "modelo panóptico" que permeia nosso ser. As aparências tem muito a ver com isso, imagens que podem ou não gerar repulsa e que em muito se liga aos modelos hierárquicos que se apresentaram a nós na fase infantil... É uma busca, que requer entrega, investigação, auto expiação para tentar se desprender das construções de uma época... Desconstruir e reconstruir modelos, ídolos (para citar Francis Bacon) e ir atrás de nossa essência..

A essência dentro da fenomenologia, chamamos de ipseidade, aquilo que vem antes do raciocínio, antes da imaginação, aquilo que para os espiritualistas se chama de "alma"... Algo subjetivo e particular de cada um... Aquilo que é seu aqui no Brasil, que seria seu se tivesse nascido em outro país, ou em outra época.. Algo que lhe caracteriza e que nenhuma construção social é capaz de tirar...

Pois mesmo sendo caracterizados pela construção cultural de uma região que habitamos, somos algo de fato que independe disso, mas é preciso buscar isso dentro de nós mesmos... Somos a continuação histórica da humanidade em todas as suas contradições, e somos bem la no fundo algo que ninguém e nenhum método é capaz de captar....

É o que nos faz pulsar, que nos causa arrepio, que nos faz emocionar.

Penso que a única coisa capaz de mostrar a nós que estamos vivos e que o que captamos do mundo exterior está de certa forma em sintonia com o nosso mundo interior é o afeto.Tudo deixa de ser ilusão quando ao adentrar os nossos sentidos, também atinge nossos sentimentos e emoções e nos faz vibrar...

Dessa maneira uma música é capaz de mostrar que estamos vivos, um quadro, um filme, um cheiro, o tato com outra pessoa... Sei que me desnudei e que o outro se desnudou a mim quando não preciso de olhos para ver... Quando beijamos fechamos os olhos, queremos a essência do outro... Não é algo que fazemos a todo momento, são raras as relações de essência que temos ao longo da vida...

As relações que temos em nosso cotidiano que respeitam as contingências e respiram a hipocrisia, seguimos códigos de condutas e precisamos a todo momento utilizar da "lógica" para transitar nesse meio. Mas quando alguém, um amigo, um "affaire", se sente seguro ao nosso lado, quando deixamos juntos de utilizar as regras contingentes de conduta, quando nos entregamos ao "fechar de olhos", aí penso estar o início do processo de relações de essência...

É aí que já não importam os conceitos e os preconceitos da minha vida, nem os conhecimentos e desconhecimentos, nem as lógicas e as irracionalidades. Pois é simplesmente uma relação que nos faz vibrar, nos sentir vivo, e no meu ver esse é o ápice da vida social me mostrando algo de verdade... Pois nessa esfera já não estamos buscando o reconhecimento em si, nem estamos preocupados em mostrar algo.. Nessa esfera estamos mais preocupados em criar, gerar, e isso vai contra o mecanismo engessado da sociedade que está mais preocupada em rotular, controlar... Sei que estou vivo em situações em que posso fechar os olhos, tatear, criar, gerar... Um processo "plástico" e pq não artístico...



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